Eneada Heliopolitana

    Na Eneada Heliopolitana se encontra toda a elaboração de uma Criação intelectualizada, todo um misticismo voltado para os fenômenos físicos e cósmicos, e certamente, a verdadeira teologia oficial do Império, que nunca foi totalmente eclipsada pelas outras doutrinas, e cuja origem se perde na antiguidade dos tempos prédinásticos.
     Essa teologia é eminentemente cósmica e solar, tendo contribuído com sua influência as idéias renovadoras e a própria revolução político - religiosa do faraó Akhenaton.
     Assim descrevia a Doutrina Heliopolitana a formação do universo, e sua analogia com a Gênesis bíblica demonstra claramente que os hebreus nela beberam a essência de sua religião:

     No inicio nada havia, nada existia. Tudo era trevas e escuridão. No entanto, todas as coisas estavam criadas, mas nada tinha forma e nem se tomava conhecimento umas das outras, pois não havia como distinguí-las e não existia luz. Tudo estava pois confundido, latente, em estado de inércia. Nesse abismo cósmico onde o germe potencial de tudo ocultava-se latente, uma força se movia, informe, sozinha. 0 egípcio chamava a esse cáos de NUN, ou "nada", o Vazio, as "águas abissais". Esse NUN simbolizava a pró-matéria, o elemento primeiro, onde tudo estava atirado e confundido, desordenadamente, em estado de inércia.

     AteomContudo, nesse "nada", ATOM ( ou TEM, TWM, TOMW ), o " Deus que se fez à si mesmo", desejoso de manifestar-se, emergiu do NUN em seu primeiro desdobramento. Colocando-se acima das águas, fez emergir a Colina Primordial, ordenando os elementos e chamando à si a Luz, através de uma formidável explosão, e surgiu RA, o Sol. ATOM é o universo em abstração, RA é a realidade visível desse universo. ATOM-RA é o Grande Demiurgo, do qual irá originar-se o Cosmos. Os textos explicam que ATOM era informe, macho e fêmea, abrigando em si os dois princípios opostos e que seriam separados no ato da Criação.

     Nascimento de RaAssim, ATOM-RA são Dois em Um. Atom é a emissão do Verbo e Rá, sua realização. Atom é chamado nos textos egípcios de "Aquele dos Milhões de Anos" e corresponde ao AIN-SOFH, ou o "Antigo de Dias" da Cabala Hebraica. Rá é a sua manifestação na Luz, cujo símbolo visível é o sol físico. Atom-RA poderia ser interpretado, mais ou menos, como "o Princípio Imanifesto manifestado na Luz". Uma vez criada a Luz, os elementos primordiais se organizam. Rá, o Sol ("Aquele que viu a realização do seu Verbo"), irá originar dois casais divinos: Shu e Tefnut.

      Assim, a Eneada Heliopolitana não só explicava a Gênese, como também trazia um ensinamento profundamente espiritual. 0 Princípio Uno se desdobrava, do macro ao micro, sua síntese, preconizando o que mais tarde seria dito por outras religiões: o homem é criado à imagem e semelhança de Deus.


     Os textos dos sarcófagos, nos ensinam que Atom- Rá diz: "Eu sou Um tornado dois, eu sou dois tornado quatro, eu sou quatro tornado oito, mas eu sou Um". E os textos das pirâmides, falando de Atom-Rá, dizem: "Quando Eu estava sozinho no Nun, e não possuía um apoio onde me firmar, eu desejei em meu coração que as coisas viessem à existência: então eu criei meu filho Shu e minha filha Tefnut, e criei miríades de estrelas". E de Osíris é dito que ele é o herdeiro de Geb e filho de Rá. E que sua alma renascida se encontra com a de Rá em Djedw, e se tornam um só. E o próprio Hórus afirma: Eu sou aquele que percorre milhões de anos, o que equivale dizer: sou eterno. Desta forma, podemos ver a profundidade filosófica que os ensinamentos de Heliópolis buscavam transmitir. E percebemos nela, a grandeza do pensamento religioso egípcio, que via em todo o universo, em toda a Criação, a manifestação de uma única força, um único princípio, se desdobrando, criando, destruindo e se renovando eternamente.

O Deus Shu e a Deusa Tefnut

O Deus Geb e a Deusa Nut

Ísis e Osíris

Seth e Neftis

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